Muito Antes dos Primeiros Dentinhos

O Estado de São Paulo – Suplemento Feminino, pg. 8 – domingo 29 de julho de 2007

O acompanhamento da gestante por um odontopediatra garante problemas de má formação dentária

Por Ciça Valerio

A saúde bucal de uma criança começa já na barriga da mãe. Para evitar má formação facial no bebê, incluindo os dentes, a gestante deve estar saudável – e sua boca também. Mas muita gente não sabe disso. Acredita-se até que, durante essa fase, a mulher não pode tratar dos dentes. Erro crasso, segundo a odontopediatra Adriana Mazzoni, que lançou o Guia Prático de Odontologia para Gestante & Bebê (Editora Videomed, Rs15).

“A gengiva da mulher pode ficar mais sensível por causa das mudanças hormonais que ocorrem durante a gestação e, dessa forma, fica também mais vulnerável a sangramentos e inflamações”, alerta Adriana. “Alguns estudos sugerem que problemas sérios na gengiva, como periodontite, podem antecipar o parto, porque a inflamação aumenta a produção de prostaglandina que é uma substância do organismo que induz a contração. E bebês prematuros são mais suscetíveis a cáries”.

Há outras lições passadas por um odontopediatra especializado também no atendimento a gestantes. Por exemplo, como amamentar de maneira correta para não prejudicar o desenvolvimento da arcada dentária e o maxilar do bebê; qual a mamadeira correta para cada situação; como administrar a chupeta para que a fala não seja prejudicada posteriormente; quando e como fazer a primeira higienização na boquinha antes mesmo de os dentes nascerem, etc.

Muito comum nos Estados Unidos, a odontopediatria no Brasil é ainda procurada por poucas mulheres que tem acesso a informação e podem pagar pelo serviço. “Costuma-se levar a criança ao dentista quando ela tem entre 2 e 3 anos, geralmente quando apresenta algum problema”, diz Adriana. “Em vários casos ela chega ao consultório com os dentinhos bem mais comprometidos do que uma simples cárie“.

A prevenção é o grande diferencial. Parece impossível, mas as mães que foram bem orientadas, desde a gestação conseguem ter filhos sem cáries. São crianças como Helena, de 8 anos, e Sofia, de 2, que exibem dentinhos perfeitos. Carolina Novak, a mãe, contou com os préstimos de um odontopediatra durante os períodos de gravidez.

“No consultório aprendi a importância da amamentação para o desenvolvimento dos músculos orais e das arcadas”, conta Carolina, de 29 anos. “É fundamental, por exemplo, mudar o lado da mamada para a face do bebê se formar com simetria.” Quando as meninas ainda eram bebê, nem tinham dente de leite ainda, a mãe começou a limpar as suas gengivas com o dedo enrolado em uma gaze embebida em água morna. “Isso ajudou a amaciar a gengiva e a amenizar os desconfortos da erupção dos primeiros dentinhos.”

CUIDADOS

Com a gengiva saudável, o bebê fica mais protegido de doenças como sapinho (infecção causada por fungo). Além disso, esse cuidado condiciona a criança para a higiene bucal, facilitando muito o hábito da escovação no futuro. “A prevenção reverte em economia, uma vez que não há necessidade de tratamentos caros e demorados depois. Deve-se fazer apenas a manutenção”, lembra Adriana, que dá cursos para gestantes e profissionais da área, em Instituições de odontologia. “Não basta apenas prevenir cáries, mas também problemas musculares, faciais, de fala, ortodônticos e estéticos.”

A primeira visita ao odontopediatra pode ocorrer no segundo trimestre de gestação, época em que a mulher está mais confortável, pois já passou pelos incômodos dos 3 primeiros meses iniciais. A próxima visita deve ocorrer por volta dos 6 meses de idade do bebê, quando nascem os primeiros dentinhos. Esse acompanhamento evita que hábitos nocivos da mãe prejudiquem a saúde do bebê e se perpetuem na infância, adolescência e fase adulta. A começar pela amamentação.

Estima-se que durante a sucção do peito o bebê faça em média 3.500 movimentos. Assim, os músculos orais e as arcadas se desenvolvem, preparando-os para a mastigação e fala. Por outro lado o número das sucções em modelos convencionais cai para cerca de 1.200. Uma diferença que justifica a função imprescindível da amamentação.
A especialista alerta para outro problema: existem mães mal-informadas que cortam o bico da mamadeira para acelerar a alimentação da criança. “Isso pode causar sérios danos à formação dentária, facial e fala”, explica Adriana. “Hoje existem modelos de mamadeiras com válvulas internas e furos no bico milimetricamente estudados para aproximar ao máximo das mamadas do peito. Por isso que a orientação do profissional é essencial ao bebê.”

Adriana Mazzoni
http://www.clinicamazzoni.com.br
Tel.: 5531-1565